Sorrisos à beira mar (3)

«(…) Há uma ou outra destas mulheres ali pelo litoral, Costa Nova, Buarcos, Furadouro, ou S. Pedro de Moel, rapariguitas que começam por brincar na praia com os pequenitos nestes tempos serenos, deixando-se balancear nas minúsculas meias luas; que ávidas de brincadeira vão com os pais a pescas distantes e por fim abraçam numa loucura a profissão como um homem e não receiam o mar enfurecido. Andam por lá; têm o seu quinhão nas pescas; vestem a castorina dos marinheiros; as camisolas de três botões, até as calçotas de quadrados; usam o barrete e lembram gentis rapazes: as outras fazem-lhes troças. Um dia, porém, tudo aquilo muda. O lépido e ágil mocinho de bordo que trepava pelo mastro da embarcação, o forte remador de calçotas de castorina vai dizer ao pai que deseja os seus trajos de mulher, as saias de roda, a cinta de franjas, as roupinhas claras, as tamanquinhas bordadas, que quer cordões e arrecadas e um lindo lenço vermelho para a sua cabeça, onde o cabelo cresceu e o velho marinheiro que já sabe de outros exemplos semelhantes, ri, encolhe os ombros e exclama:

- No fim de sempre és uma rapariga!... – e dá-lhe o dinheiro das soldadas e manda-a tratar do amanho da casa.(…)»


Texto (adaptado à grafia actual) e imagens retiradas da Illustração Portugueza, nº237, Lisboa, 3 de Setembro de 1910

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