Os carreiros do Douro (2)

Na sequência do post anterior...

António Luís Pinto da Costa, na sua obra «Alto Douro – terra de vinho e de gente» (Edições Cosmos, Lisboa, 1999), escreve que

«(…) Os cascos eram transportados pelas empinadas veredas e calçadas alto-durienses em carros de bois, especialmente concebidos para essa função: o cabeçado era ligeiramente encurvado para cima para não estrangular os animais nas descidas; o chedeiro não tinha soalho, ficando com as travessas à vista para ser mais leve; as chedas, levemente encurvadas para dentro, prologavam-se para além da última travessa do leito, para que nelas pudesse assentar-se, atravessado, um pipo de vinho, o penso dos bois ou o que fosse preciso para a viagem; as rodas, embora de madeira, tinham amplos espaços vazios e reforços de grandes pranchetas de ferro (meias-luas ou seitoiras), para se tornarem leves e resistentes; as molhelhas, feitas de couro e forradas a pano vermelho protegiam a cabeça do animal: o chiadoiro do eixo nas treitoiras insensibilizava o animal que puxava para outros barulhos e, segundo a voz do povo, afastava os lobos e os espíritos maus; ao pé do tesão, havia um espaço vazio, formando uma caixa (tabuleiro) para o boieiro guardar a comida.

A partir de 1925, a camioneta de carga começou a fazer concorrência ao vestuto carro de bois. Dada a feição ladeirenta do solo e a falta de bons caminhos vicinais, as veredas e atalhos continuaram a ser exclusivo seu ainda por algumas dezenas de anos (…).

À frente, ao lado ou atrás do carro, seguia o carreiro, de aguilhada na mão:

Triste sorte foi a minha
O meu amor é carreiro:
Anda de ‘strada em ‘strada
De ribeiro em ribeiro.

O meu amor é carreiro
Da Régua par’o Pinhão:
Passa uma vida alegre
Com a aguilhada na mão.»


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